Entrevista
Psicologo trabalha com mil alunos num ano
Dezembro/2016 |

O psicólogo Luís Simões exerce funções nos Serviços de Psicologia e Orientação do Ministério da Educação há 20 anos.O agrupamento da Batalha é a terceira escola onde exerce funções e conhece bem a realidade do estabelecimento de ensino. Também deu a formação e lecionou no ensino superior público e privado.



O que levou a optar pela psicologia vocacional?


Nos primeiros anos de curso, identifiquei-me de forma imediata com a área do desenvolvimento e da orientação escolar, em que se trabalha com as faixas etárias com as quais me sinto mais à vontade, a infância e adolescência. E achava fascinante a ideia de ajudar na construção de um projeto de vida. Fui também bastante pragmático, ou seja, existia ainda bastante oferta de emprego.




Qual a sua influência e papel na escola?


Quero pensar que é relevante, precisamente pela abrangência de atuação e pela quantidade significativa de situações com as quais me deparo diariamente. No ano letivo passado, trabalhei, direta e indiretamente, com mais de 1000 alunos (do jardim de infância ao 12.º ano) e penso que isso diz qualquer coisa sobre a polivalência de funções que exerço e que não se circunscreve a uma área específica, como a orientação escolar e profissional. E sempre considerei que integrar é fundamental apesar de nem sempre ser um processo fácil, e daí reunir com centenas deles durante o ano.




Quais são as áreas vocacionais preferidas dos alunos?


Claramente existe nos últimos anos a perceção social de que as áreas das tecnologias e das ciências são as de mais futuro e onde estão necessariamente os melhores alunos, algo que não é totalmente errado, mas que é bastante redutor por não valorizar e considerar outros aspetos da natureza humana que são, a meu ver, tão ou mais enriquecedoras, como as humanidades ou as artes. Mas existe também um cada vez maior número de alunos que aposta no ensino profissional, de cariz mais prático. Valoriza-se mais este tipo de percurso e isso é bastante positivo.




De que modo o meio influência as escolhas dos alunos?


O que complica ainda mais esta equação é o meio sociofamiliar de origem, nomeadamente o grau de instrução obtida, sobretudo da mãe, e que está bastante relacionado com o sucesso académico e motivação escolar. No entanto, remeter exclusivamente para a origem social dos alunos os fatores de sucesso ou de insucesso escolares tende a desresponsabilizar o papel da escola e da comunidade local para contrariar esse determinismo.




O que se pode fazer para a escola ser de vanguarda?


Penso que se deveria priorizar ainda mais as estratégias preventivas de atuação e não apenas as remediativas, que mascaram muitas vezes a realidade. Por exemplo, prevenir, na medida do possível, logo no jardim-de-infância e inicio do 1.º Ciclo, os problemas de aprendizagem, de desenvolvimento, ou de comportamento. Atuar e colaborar de forma muito intensa com as famílias e trabalhar em rede com outros serviços. O que se pouparia mais tarde em trabalho desgastante e burocracia não tem preço. Prevenir o insucesso deveria ser a maior das prioridades, até pelo que se sabe que isso causa mais tarde (por exemplo, menor saúde mental). Isso e promover ainda mais uma cultura de escola relacional e humanista.