Opinião
Sebastianismo do século XXI
Dezembro/2016 | Afonso Marques 12.º A

A 4 de agosto de 1578 morreu um jovem desejado e bem amado Rei Português - nesse mesmo dia nasceu um mito que rege o quotidiano deste nosso rectangulozinho à beira-mar-plantado desde então. O mito de que esse lendário rei voltará numa manhã de cerrado nevoeiro.



Por mais que se despreze e varra para debaixo do tapete essa ressurreição real, continua o fardo pesado da esperança. Hoje em dia, o nevoeiro é outro e a vinda aguardada já não é mais a de um rei. Nos dias que correm, o nevoeiro é a preguiça, a decadência cultural, a crença numa entidade externa que trará dias melhores, mais dinheiro, mais saúde, mais direitos, mais igualdade social - um Portugal melhor.



O rei deixou de ser a figura mítica, transformando-se numa metáfora viva para tempos mais ricos que surgirão sem qualquer esforço. Como português, olho para o meu cantinho e deparo-me com um país ressequido, onde residem vírus de corrupção, desigualdade social e, acima de tudo, uma falta de vontade desmesurada.



Numa análise simples da nossa sociedade, deparamo-nos com sebastianistas que depositam as suas esperanças numa força externa insistente que salvará o país, recusando fazer algo que os retire da sua área de conforto e deixando-se ficar refastelados reclamando que a culpa é sempre dos “outros”, que não vale a “pena” qualquer tentativa, pois não são nada nesta nação de outrora de tão altos feitos.



Nós temos diversos problemas culturais, industriais, governamentais e cívicos, mas no topo da questão estão as pessoas, pois são as pessoas, somos nós todos que fazemos Portugal e temos de ser nós todos a mudar Portugal!



Não podemos esperar pela vinda de nada nem de ninguém. Temos de ser nós a desbravar este nevoeiro social!